aba inner capa

Ao Gosto do Freguês

Matéria publicada na Folha de São Paulo

Sexo grupal na praça e no ônibus: Inner Club, em São Paulo, realiza desejos de clientes

Os casais entram de mãos dadas na Inner Club. Em pouco tempo, aqueles dedos carinhosamente entrelaçados vão estar percorrendo outros corpos, arranhando traseiros alheios e estofados coletivos.

Caçadora, Renata* olha e se insinua para um casal de novinhas. Seu marido confia no gosto dela. O acordo deles é: ela comanda, ele nem opina. “Só não pode beber muito, porque aí ela pega qualquer uma”, brinca Renan*.

“Transo com mulher desde a adolescência, mas meu gozo é na penetração, e só com meu marido. Não me acostumei com o cheiro dos outros homens”, revela Renata, casada há 17 anos e com dois filhos adolescentes em casa enquanto os pais estão na gandaia.

O par desejado é lindo. Uma negra de cabelos cacheados e corpo moldado pelo vestido de vinil e uma loira de óculos e roupas soltas. Iluminadas pelos lasers coloridos, elas balançam no meio da pista e elevam a energia tesônica do lugar. Pela troca de carinhos e beijos, parece um apaixonadíssimo par monogâmico, mas, se estão no swing, é porque querem algo a mais.

Ao lado, uma veterana siliconada se atraca com uma ninfeta só de calcinha. O acompanhante grisalho de uma delas se aproxima e engata um beijo triplo. Os mundanos não têm idade. Ou melhor, têm todas.

Depois de muita lambeção, o trio vai cambaleante para a área reservada. Se na pista impera o soft porn, nas cabines o estilo é hardcore na casa de swing com 24 anos de tradição.

Aba Anônima publicará uma série de reportagens com um “test drive” de casas de swing pelo Brasil. Esta é a primeira.

aba inner01
 

AROMA DO AMOR

“Limpamos tudo com antibactericidas sem perfume porque aqui precisa ter cheiro de sexo, de feromônio”, define Thais Jacomossi, sócia da casa. A equipe de seguranças e faxineiros são vultos eficientes no meio daquela procissão profana na penumbra.

A acústica da “área de interação” abafa o classic rock que vem da pista. A trilha ali é de urros, gemidos, suspiros e estalos de carne se batendo. Na afobação, a clientela se tromba nos corredores. Uns querem ver; outros, serem vistos. Uns planejam ménages à trois; outros, trocas de casais. Cada um monta seu combo.

Solteira entre tantas duplas, Adriana* veio atrás de sacanagem. “Só comecei, quero gozar mais. Venho para meter com muita gente por todo lado. Quero gritaria. Fico excitada com o prazer geral. É como se tivesse eletricidade no ar”, confessa, após duas trepadas em sofás coletivos. “Já não curto mais sexo convencional, só em casa no 1 a 1. É chato.”

Adriana não é exceção. Há três décadas trabalhando com os suingueiros, o gerente Cláudio Geraldo explica esse universo. “Aqui não tem briga como nas baladas comuns, porque o pessoal não bebe tanto, e os frequentadores são respeitosos. É muito difícil ter cenas de assédio ou ciúmes”, conta. “O problema mesmo é manter o negócio em pé, porque a mulherada é insaciável. Quer mais, quer vários. Os homens param. Elas não.”

aba inner02v2
 

SEXO É TROCA

A Inner se assemelha a uma casa noturna convencional, com pista de dança, balcão de bar e mesas para os convivas, a não ser por dois detalhes: 1) uma parede no mezanino é toda decorada com posições orgiásticas em estilo afresco romano; 2) um painel de LED orienta onde estão as saletas, o cinema pornô e a masmorra.

Quem segue as setas luminosas vai parar em corredores escuros com paredes cheias de portas e espaços coletivos. Há um labirinto só para casais, com segurança na entrada barrando os solteiros (pulseiras dadas na portaria distinguem o estado civil da freguesia). Já os cônjuges só podem transitar juntos pela área dos reservados, para evitar escapadinhas dos maridões.

A masmorra conta com tochas artificiais e uma cela. Lá, uma prisioneira voluntária era enrabada enquanto proporcionava boquetes para os varões que oferecessem suas varas através das grades.

Um ônibus antigo estacionado no galpão é propício para o sexo grupal em todos os assentos (menos o do motorista). Ao contrário do que acontece na vida real, todos preferem o corredor (mais movimentado) à janela.

Há também um octógono estilo UFC, cercado de alambrado, para o vale-tudo das artes amorosas. E no final da casa, uma praça cenográfica com bancos, postes e uma foto gigante de um coreto satisfaz exibicionistas e voyeuristas.

aba inner03v3

OUTRAS COMIDAS

“Aqui a cachorrada corre solta”, define Ariana*. A cearense e o marido italiano adoram praticar o revezamento de parceiros. Em suas viagens, frequentam boates similares. “A Inner tem nível internacional. Só falta um sushizinho pra gente matar a fome nos intervalos”, opina. A casa não trabalha com comida pelo foco na limpeza dos ambientes, argumenta a gerência.

Um rigoroso código interno não permite que homens fiquem de peito nu na pista — só a stripper, durante seu show, pode desnudar o sortudo que puxar para o palco. Também é barrada a entrada de quem estiver de boné ou regata. “Homens precisam de mais regras”, diz Thais.

Outra prática proibida é fotografar. Se alguém levantar o celular e apontar, um segurança se aproxima prontamente para garantir a privacidade dos outros. Foto mesmo, só selfie diante de um banner na entrada — é preciso contentar também aqueles que querem posar de liberais e transantes nas redes sociais.

Thais sucedeu o pai no comando da casa, que existe desde 1999 e é a segunda mais antiga em funcionamento em São Paulo — só perde para a Marrakesh. Em 2023, a Inner trocou o bairro de Moema, a meca dos suingueiros paulistanos, por Santo Amaro, e duplicou seu espaço.

aba inner04
 

“As outras são baladas liberais, aqui é um clube de swing”, define a sócia, a partir do perfil dos frequentadores e da proporção de espaços para sexo em relação às áreas para dançar, beber e conversar.

O perfil do público é mais de meia-idade, mas houve renovação da clientela depois da mudança de endereço. Apesar da presença de vários corpos esculpidos em sessões de musculação e cirurgia, a frequência é mais de pessoas comuns, que você encontraria em um corredor de supermercado ou fila de padaria.

Depois dos shows dos strippers à 1h da manhã, acontece uma verdadeira correnteza humana para a obscuridade das cabines.

O engenheiro civil Renan e a psicóloga Renata não conseguiram atrair para uma alcova aquele cobiçado casal feminino. Mas às 3h30 pintou na área uma morena, alta em vários sentidos (1,8m e vários tragos em cima). Após se trancarem, deram um trato na gata por 40 minutos.

Às 5h30, Renan e Renata voltaram para casa e, como fazem sempre para finalizar a noitada, transaram com muito tesão. Acordaram quase meio-dia para um domingo em família com os filhotes.

*Nomes trocados para manter a privacidade dos entrevistados.
**Agradecimentos ao casal Marina e Márcio, ao casal Pimenta e Carol Souza, influencers do mundo liberal, pela participação na sessão de fotos

FONTE: https://tab.uol.com.br/edicao/inner/#cover

RODRIGO BERTOLOTTO (TEXTO) E MARIANA PEKIN (FOTOS)DO TAB, EM SÃO PAULO